“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos, entender que não entendo”
Clarice Lispector, em “A Descoberta do Mundo”
O não entender, leva à busca, mergulha num ócio criativo (Domenico de Masi, 2000), inquieta, provoca e arrebata, faz querer resolver, mesmo sabendo que a busca das respostas é infinita, posto que as dúvidas sempre aparecerão num cérebro inquieto. Talvez seja esse, um mal pós-moderno! Ou, um bem, quem saberá?
O fato é que a inquietude de um ser humano sem fronteiras faz querer mais. Mais consciência, mais ferramentas, mais possibilidades para quem sequer sabe que pode alguma coisa.
Mais consciência, mais ferramentas, mais possibilidades para a parcela da sociedade que sofre com uma cultura de infância abandonada, infância sem diálogo, sem tempo para o lúdico. Uma infância que ainda é vista como preparação para o mundo adulto, onde não há espaço para o reconhecimento da importância de seu papel na sociedade. E que a cada dia vê-se mais pressionada pelo modelo educacional moderno num mundo pós-moderno. Um mundo em constantes mudanças, oscilações, variações, um mundo marcado pela fluidez e pela complexidade, que parece não entender pra onde vai! Mas cobra entendimento e ações configuradas para um ser humano plastificado, sem direito a ser e agir diferente do massificado.
Analisando a práxis pedagógica sob a ótica da sociologia da educação de Pierre Bourdieu, levantam-se as seguintes questões: Será só uma educação escolarizada de qualidade que falta para essas crianças? Será a escola o único meio pelo qual a criança desenvolve seu potencial cognitivo? Qual o impacto das dificuldades de aprendizagem na construção do conhecimento do aluno, considerando seu capital econômico, social e cultural? E quais as possibilidades de intervenção psicopedagógicas para auxiliar os atores inseridos nesse contexto, professor e aluno?
Se a clientela é diferente, as necessidades são diferentes, se o mundo é totalmente múltiplo e complexo, porque a avaliação escolar continua nesse patamar inativo engessado?

